quinta-feira, 22 de setembro de 2011

HD RELOADED


Mentes pensantes são conjuntos de ideias unidas pela lógica, a bela lógica que faz com que a cada dia possamos construir e reconstruir aquilo que precisamos. É nesse sentido que venho agora pensar, e o que mais me anima: expor meus pensamentos e minha linha de lógica no que eu acho ser uma oportunidade única de manter nossas sinapses culturais intactas.

O Holística Diária surgiu como uma forma de desabafo, uma turma de amigos que tinha muito o que falar e discutir, e a necessidade de expor essas ideias, aliás, nada mais comum em sociedades de primatas superiores do que a necessidade física de expor ideias e a partir da discussão estipular diferenças e principalmente alianças. A construção memética presente no HD permitiu um crescimento estupendo daqueles que verdadeiramente participavam do grupo de escritores. Mas mesmo assim o fim, ao menos como se imaginava, chegou no momento em que nos deixamos ser dominados pela infantilidade e principalmente nos deixar estafar pela inclusão de ideias contrárias as nossas.

Bom, não estamos aqui para falar do fim, mas sim do recomeço. Recomeço este esperado por todos os que compunham a linha editorial do blog, aqueles que depois de perder o espaço virtual se sentavam no chão e lançavam suas ideias ao ar, na esperança que estas, de alguma forma, sobrepujassem a trama de representação presente em cada um dos ouvintes, fazendo uma frase ser interpretada de maneiras diversas. Superada essa barreira, fica em cada um a expectativa em receber de volta acréscimos à ideia inicial, e que estas não sejam somente elogios vagos, e sim críticas reais, baseados em conhecimento anteriores e nas ideias construídas diariamente, a cada segundo, através de cada observação, por mais banal que um fato seja, uma vez que para cientistas, o que somos todos, a banalidade de um fato deve ser visto somente como resposta de mentes ignorantes a uma observação incompleta.

A beleza de poder construir ideias em grupo é partir do consenso inicial que os preconceitos serão minimizados, que teorias contrárias serão respeitadas.

RESPEITO, com base no que já passamos, venho tratar sobre respeito não somente como a reação nula a uma ideia contrária, e sim como uma atitude de abertura a ideias novas, poder receber um pensamento e se dispor a elaborar uma opinião que tente entender o ponto de vista do autor e não somente rechaçá-lo, ou aceitá-lo de forma passiva. Me pergunto as vezes porque eu tenho que concordar com o que os outros falam, mas isso também me leva a pensar, porque eu tenho que discordar? Podemos então colocar isso em outro nível quando eu me pergunto: sabendo que há outros conceitos e opiniões acerca das mesmas ideias, porque pensar que a minha está correta? O que há de especial no meu ponto de vista que me faz achar que o outro está totalmente errado?

A partir dessas questões, este texto inicial vem como um convite, não somente ao envio e publicação de ideias, as quais são muito bem vindas, mas principalmente como um pedido para que participemos juntos de um processo de mudança de ideias, de movimentação constante, uma dinâmica de conceitos, sem o certo e o errado, com uma observação e principalmente um admiração e respeito pelo transitório, este o único conhecimento que temos a nossa disposição hoje, agora.

Pensando assim, nada melhor que começar com os pensamentos do grande amigo, biólogo, filósofo, arqueólogo, enólogo, dentre outras qualidades, Allysson Allan.

O post 'The End' não nega a situação emotiva que passamos por nos desfazermos de algo que era um hospedeiro de situações cotidianas e compartilhamento de idéias e ideais. O 'up' ou 'increase' de rigor se deu logo após a finalização do blog, o grupo formado essencialmente de estudantes de biologia, que hoje são pós-graduandos em áreas distintas, compartilhou um pouco do debate tête-à-tête, levando o conteúdo para as aulas e diálogos em todas as partes.

Se não bastasse aquele arrependimento "- Que saudade do HD", tínhamos um retrocesso no diálogo com outros que não eram do grupo. Ou seja, para não causar impactos, nos abstivemos de muitos debates para não perdermos tempo, nem energia, em épocas que necessitaríamos.

Nada mais justo que retomar esse blog utilizando temáticas especializadas.

Aqui descobrimos que o reducionismo, o positivismo e o rigor tem lá seu lado bom. Aqui também descobrimos como funciona o sistema, a quem recorrer, e como funcionam as políticas públicas. Discernir o joio do trigo é importante, e cá estamos nós colidindo o passado com o presente. Um mundo de conhecimento está se formando localmente, mundialmente. Não podemos perder tempo, que seja dada a largada. Pedaços de engasgos também terão vez, logo após aprovação do Ribamar, nosso Editor-in-chief.

Assim, abatemos a distância que nos separa, tanto de você leitor, como entre nós, autores.

All.

E concluir com as boas vindas do grande Souto Melo, Uirá (2011) :

"Enfim, depois do fim, de volta. É o começo depois do fim, ou fim do fim que há anos começou? Mesma equipe, mesmos devaneios, mesma ingenuidade, mesma qualidade. O que diferencia agora é o mesmo; os mesmos não são mais os mesmos. Não me refiro a qualificações ou status, me refiro a experiência que por tempos não era compartilhada. Amadurecemos, as ideias talvez também. Textos serão escritos, pensamentos serão libertados, pontos de vista criticados e compromisso garantido. Faço dessas palavras a garantia das minhas ações e reações. De rotina, de volta ao Holística Diária."

sábado, 27 de junho de 2009

Filogenia Pluft

Os programas de análise filogenética levam em consideração uma matriz de dados (caracteres x táxons) para construção de uma árvore filogenética. Nesta árvore são mostrados os valores de parentesco (sinais filogenéticos) entre um galho e outro. Alguns chegam próximos ao valor de 100, outros tem forte sinal de parentesco com 85, de 75 abaixo o sinal é fraco. Isso segundo o livro do Horácio.

A utilização da análise de parcimônia compreende a passagem da homologia primária para a homologia secundária. Além dos valores de parentesco, temos que ver a coerência biogeográfica das espécies encontradas. Dentro de um gênero, podemos ter espécies do Japão, da Noruega, do Alasca e da África do Sul, por exemplo, África do Sul e Japão com sinal filogenético forte é sinal de incoerência, e a partir daí temos de retirar as homoplasias (evoluções independentes, embora com produtos parecidos, iguais).

Foi-se o tempo em que os filogeneticistas esperavam onze meses - vide Swofford, manual do PAUP - de busca ininterrupta no Pentium II para se chegar a uma estimativa filogenética, sendo esta última não necessariamente, a ideal. Com o PAUP (Phylogenetic Analysis Using Parsymony), este tempo inteiro era gasto através de uma busca exaustiva, e por isso impraticável, desnecessária. Com o NONA, esse tempo de busca em uma análise semelhante o tempo de onze meses caiu para quatro horas - vide Goloboff, manual do NONA. A revolução fica pelo programa TNT (Tree analysis using New Technology), o mesmo Goloboff do NONA mais o Farris e o Nixon, mostraram que uma análise pode ser feita em 10 minutos.

O artigo Methods for Quick Consensus Estimation, do Goloboff & Farris (2001) nos mostra o histórico dos problemas, do efeito dos diferentes parâmetros usados pelos programas de análise filogenética para estimar as relações de parentesco, e o suporte relativo pela feição de árvores otimizadas através de algoritmos específicos.

Algoritmos, isso é o que muda, entre um e outro programa. Ferramentas necessárias para o uso em filogenia. Observando os abstracts do Willi Hennig Meeting Society, que inclui a participação de diversos brasileiros, o programa mais utilizado é o TNT. Embora com parâmetros diferentes, um resultado mais rápido é necessário, e uma nova discussão baseada nestes parâmetros é fato. PAUP e NONA deixados para trás, assim como o Hennig86 (interface DOS).

E assim a ciência evolutiva avança, que elegância.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

4 Séculos de Exploração

Triste Bahia, explorada e registrada artisticamente no passado. Analogias são válidas para os outros Estados atualmente. A escassez de recursos já é mostrada através das estrofes, uma prostituição escravagista da terra, imaginem dos trabalhadores dela. Há quatrocentos anos atrás.

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!



Gregório de Matos, por volta de 1600.

Outro registro interessante, mais explorações da "colonizadora" Portugal, isso em 1655:

"Conjugam por todos os modos o Verbo Rapio, porque furtam por todos os modos da arte, não falando em outros novos e esquisitos. Tanto que lá chegam, começam a furtar pelo modo Indicativo, porque a primeira informação que pedem aos práticos é que lhes apontem e mostrem os caminhos por onde podem abarcar tudo. Furtam pelo modo Imperativo, porque como têm o mero e misto império, todo ele aplicam despoticamente às execuções da rapina. Furtam pelo modo Mandativo, porque aceitam quanto lhes mandam, e para que mandem todos, os que não mandam não são aceitos. Furtam pelo modo Optativo, porque desejam quanto lhes parece bem, e gabando as coisas desejadas aos donos delas, por cortesia sem vontade as fazem suas. Furtam pelo modo Conjuntivo, porque ajuntam o seu ponto cabedal com o daqueles que manejam muito, e basta só que ajuntem a sua graça, para serem, quando menos, meeiros da ganância. Furtam pelo modo Potencial, porque, sem pretexto, nem cerimônia usam de potência. Furtam pelo modo Permissivo, porque permitem que outros furtem, e estes compram as permissões. Furtam pelo modo Infinitivo, porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lá deixam raízes, em que se vão continuando os furtos. Estes mesmos modos conjugam por todas as Pessoas, porque a primeira pessoa do Verbo é a sua, as segundas os seus criados e as terceiras, quantas para isso têm indústria e consciência. Furtam juntamente por todos os tempos, porque do Presente (que é o seu tempo) colhem quanto dá de si o triênio, e para incluírem no Presente o Pretérito e Futuro, do Pretérito desenterram crimes, de que vendem os perdões e dívidas esquecidas, de que se pagam inteiramente, e do Futuro empenham as rendas, e antecipam os contratos, com que tudo o caído, e não caído lhe vem cair nas mãos. Finalmente, nos mesmos tempos não lhes escapam os Imperfeitos, Perfeitos, Plusquam Perfeitos, e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse. Em suma que o resumo de toda esta rapante conjugação vem a ser o supino do mesmo Verbo: a furtar para furtar."

O literato pe. Antônio Vieira nos mostra o quão, um registro histórico, é imprescindível para deixá-lo imortalizado, bem como imortalizar o sistema gajo-econômico da época. Uma verdadeira aula, denotativamente, de português.

Ele também cita Aristóteles levando em consideração a noção de governança do mundo, que se divide em onze paixões, mas acaba se resumindo em duas, dois polos que o dividem: o amor e o ódio. Por isso, tão mal governado.

Com amor o demônio é formoso.
Desabafo aqui o que não posso fazer a curto prazo, nem a médio, nem a longo. Acabar com a política exploratória brasileira. Só nos resta fazer registros desocultando a realidade, intervir nos espaços, existir.

domingo, 21 de junho de 2009

Parafina derretida

A vela é sinônimo de acompanhar um casal ou mais de um, durante uma festa. A vela, no sentido denotativo, é um objeto feito de parafina utilizado para iluminar segundo a Wikipédia.

Geralmente a vela demora a ficar sem iluminação, a luz por sua vez morre sem gás atmosférico, ou quando o pavio é totalmente queimado. Alguns têm pavio curto, outros têm muita parafina. Após observar uma noite inteira de festa, pude perceber sensações não muito agradáveis de ser vela. Alguns têm chama para aquecer, outros não. Fazendo com estes fiquem invisíveis durante o escuro da festa.

A parte pior é quando a vela já acesa, é aquecida por atos de carinho do casal.

Outra piora leva em consideração os inúmeros focos de churrasquinho (incêndios) percebidos ao longo do Parque do Povo. Alguns reclamam, outros simplesmente saem de perto ou ignoram. Algo desagradável como queimaduras aparecem ao longo da festa, próximas àquelas churrasqueiras improvisadas e enferrujadas.

A carne é de péssima qualidade, com uma coloração vermelha intensa, percebo ainda focos de gotas de sangue nas salsichas assadas, coração de galinha, dentre outras seboseiras. O jeito é beber, mas encontramos as latinhas de cerveja e os litros de água mineral no mesmo carrinho que carrega a churrasqueira improvisada, e os diversos derivados das carnes sem um mínimo de higiene.

Com poucos minutos, a latinha de cerveja é manipulada pelo vendedor que pega o dinheiro, e volta a assar a carne. Para piorar, dentro do isopor há água descongelada, onde há também um mar de bactérias felizes, prontas para atacar. No outro dia ninguém sabe qual a fonte da doença de garganta que apareceu. A flora vira uma guerra da noite para o dia.

E ainda para piorar, recebo um: "- Hipoglós é bom para os dedos." Ao passar por um conhecido, ao me ver com o casal. Tá, ainda havia a prima dela para me acompanhar, mas a conversa não atraia, aquele quê de EJC, outro quê de "- qual a festa de amanhã", com um quê insuportável de "- Como está o meu cabelo?"

Vamos falar sobre o casal. Ele não me conhecia direito, disse "- Oi!" E nem olhava direito para meu rosto, no mínimo, com ciúmes da minha amiga, que admito, era paquerinha minha de longa data, desde 2007 para ser mais preciso.* De cima para baixo (da palhoça ao palco principal) andamos, eles se beijavam freneticamente, e não há situação mais constrangedora do que ficar olhando beijos e escutando lábios e estalos e diversos outros "traços etológicos" egohedonistas. Mas, como tinha prometido passar a noite com a dita cuja, não poderia deixá-la "sozinha". Logo, a madrugada inteira como parafina, pavio e chama. Essa se apagava após olhares para mim, com aquele gosto de fica aqui do meu lado, não te decepcionarei. Consegui identificar esses olhares, tanto que na metade da noite, o parceiro dela conversando com os amigos e bebendo disperso, e eu lá conversando com as duas, em especial a que estava de namorado, que me olhou de cima a baixo do nada, e disse:

"- Hoje você está perfeito" (sussurrado)

Essa afirmação, junto à poluição sonora, fez com que ninguém percebesse essa fala. Tanto que pedi para repetir, "- hã?". E ela repetiu, umas duas vezes a mais com aquele sorriso encantador digno de propaganda de creme dental.

Desde então aqueles sorrisos apaixonados se misturaram, e não deu outra.

A desculpa: comprar capirinha.

Logo, ela toma frente do grupo, 100 metros adiante, pega minha mão. Carinhos se evidenciam, o tato é super importante nestas horas, o atrito dos dedos se entrelaçando e em harmonia na busca incessante pela posição ideal. Coisas de primeira vez que um casal se encontra. Ficam trocando carinhos pela mão, depois com um mês sabemos que esse tateamento morre. A mão dá lugar ao braço, perna, cotovelos, boca, e derivados.

Voltando a história, a ida à barraca de bebidas foi encantadora. Logo, contagiado pela situação fui comprar do outro lado da avenida, o meu preferido "Fim do Mundo", e ela, a maravilhosa batida de cajá. Olhares, carinhos e aquela dança de forró especial, que lembrou o momentum de um ano atrás, quando nos encontramos pela primeira vez na frente da Igreja do Parque do Povo, neste mesmo lugar.

Começo a pensar em situações passadas, e por ter aprendido o quão é bom namorar, deja vus nascem, fico reflexivo e me desanimo instantaneamente. Essa sensação tem um fundo de "ruedeira" na linguagem popular, e é amplamente valorizado nas músicas de forró. Não me lembro delas, mas lembro que estava cantando todas, mesmo que improvisando só o final. Perdido naquela festa, achado em mim mesmo. Os minutos que fiquei em silêncio sem cantar as músicas de forró me fizeram refletir sobre minhas práticas. E logo solto: "- Você e ele fazem um casal perfeito, parabéns!" Ela: "Isso é uma ironia!?" Eu: "- Não, não é."

Voltamos a dançar, a caipirinha logo fica pronta, voltamos e logo embriagado, reencontro os amigos e vou à caminho da casa deles, dormir e me preparar para mais uma noite. Esta, sem promessas, sem parafina, com muito pavio e muita chama.

*Ler o post Amante Profissional antes faz bem.